Diante do ódio, amor
by Anne Isabelle
Nos últimos dias, a deputada Erika Hilton foi eleita presidente da comissão dos direitos da mulher na Câmara dos Deputados. Erika, como todos sabem, é uma mulher trans.
Não demorou pra que pessoas de extrema direita, TERFs, mulheres cis ditas apolíticas, esquerdomachos e outros apontarem que é injusto uma mulher trans presidir tal comissão. Os argumentos são sempre os mesmos, em níveis cada vez mais desconfortáveis: ela não tem útero, ela não menstrua, ela tem próstata, ela tem pênis. O estopim foi o apresentador Ratinho falar contra a escolha da Erika em rede nacional.
O nível de embasamento pode até variar, vai desde pessoas com uma lógica quebrada até ditas pesquisadoras de gênero que fazem roundabouts filosóficos e sociais pra chegar na mesma conclusão transfóbica.
Eu, como uma mulher trans, me sinto cansada.
Eu me sinto cansada porque pessoas trans compõem por volta de 2% da população brasileira.
Eu me sinto cansada porque a escalada de feminicídios e crimes de violência contra mulher, estupro e abuso infantil, em sua grande maioria, são cometidos por homens. Cis.
Eu me sinto cansada porque pessoas como a Erika Hilton tem criado projetos de lei que beneficiam todas as mulheres, e ela foca em projetos de aborto legal (que é útil para pessoas que gestam), em projetos que ajudam mulheres vítimas de violência, projetos de dignidade menstrual, mesmo ela sendo uma mulher trans.
Eu me sinto cansada que mulheres que são referência nos estudos de gênero tem dado munição para o ódio contra nós.
Eu me sinto cansada que mulheres e homens acabam caindo na lógica simplista do conceito biológico de sexo pra definir o que nós, mulheres trans, podemos ou não podemos fazer.
Eu me sinto cansada de ver pessoas trans sofrendo violências físicas, simbólicas, apagamento e perseguição por serem quem são.
Quando eu comecei minha transição, eu não imaginei que seria fácil. Me acostumei com pessoas me sexualizando, me erotizando, me fetichizando, me olhando com olhar zoológico, me perguntando coisas ridículas ou falando que eu “nem pareço trans” como uma forma de elogio. Eu chorei muitas vezes, eu pensei em desistir muitas vezes, eu fiquei puta da vida muitas vezes.
Mas eu gosto de sempre lembrar que eu não transicionei à toa. Eu transicionei porque eu sempre fui uma mulher. Eu só não sabia exatamente.
E, depois de transicionar, eu comecei a olhar pro meu corpo e me admirar. Eu comecei a tirar fotos. Eu comecei a falar com pessoas. Eu comecei a amar, tudo o que merece ser amado. Eu olho pra minhas amigas trans com admiração porque se descobrir trans é uma jornada belíssima de autoconhecimento e uma tomada de decisão difícil no mundo em que vivemos.
Eu posso ter muitos problemas comigo mesma. Eu tenho transtornos mentais (e quem não tem hoje em dia). Eu fico deprimida com frequência. Mas ainda assim, ter transicionado com certeza salvou minha vida. Ter pessoas que me acolhem e que acolhem vivências trans salva vidas.
Eu não sei como ignorar o ódio, ou como corrigí-lo. Talvez seja impossível. Mas o importante é que nós somos pessoas incríveis e que a gente só quer paz.
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