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A catgirls life 🏳️‍⚧️😺

20 May 2026

Glowing up and becoming oneself

by Anne Isabelle

Muito se fala sobre glow up – transformar-se na melhor versão de si mesma.

Hoje minha melhor amiga me mandou esse vídeo sobre glow up. A moça do vídeo traz pontos importantíssimos sobre essa questão. Muito se pensa no glow up em termos de autoimagem – como nos tornamos mais “bonitas” (talvez com base no que é visto como esteticamente atraente pela sociedade), “saudáveis” (mais uma vez, o que é visto como saudável pela sociedade), ignorando problemas de saúde mental e ignorando qualquer negatividade. Positividade tóxica at its finest.

E ela traz também o ponto de que esse glow up que a gente vê por aí está sempre ligado ao externo, mas nunca ao nosso interior e nossa essência.

Eu acho que muitas pessoas confundem autoestima com autoimagem. A autoestima diz muito sobre como nos vemos como indivíduos – nossas ações, nossos gostos, nosso senso ético e de justiça e como nos sentimos bem e alinhados com o que acreditamos. A desconexão, a disforia entre o que vemos na realidade com o que esperamos, revela problemas de autoestima. É aí que surgem pensamentos como “eu não sou uma boa pessoa” ou “eu não sirvo pra isso” ou “eu sou péssima”.

Já a autoimagem é muito ditada pela comparação. Eu pessoalmente estou lidando com ver meu corpo cheio de cicatrizes, acima do peso e me percebendo cada vez menos atraente. Convenhamos que corpos trans, gordos e autistas são sempre vistos como menos atraentes pois a sociedade tem um parâmetro de que “saudável” (entre muitas aspas) é algo esteticamente atraente.

Além disso, algumas coisas tem me ajudado a subverter a noção de atração típica e seguir a autoimagem que faz bem pra mim: tenho o braço tatuado com animes, uso óculos, tenho cabelo colorido, pretendo colocar piercings.

A conexão de autoestima e autoimagem começam a se reunir quando a gente percebe que, mesmo doentes, podemos ser lindas e incríveis. Eu tenho sido muito adepta da visibilidade radical. Eu gosto de andar com cordão de girassol. Eu gosto de andar com stim toys. Eu gosto de quando as pessoas falam comigo e eu olho pra baixo ou me sinto levemente desconfortável. Ou quando falo dos mais estranhos interesses especiais que tenho. Gostar de mim é gostar do meu autismo.

Meu autismo é visível, minha transgeneridade é visível. Antes eu tinha muito medo de não passar, muito medo da minha voz andrógina me entregar. No final, esses medos passaram. Às vezes eu faço uma voz mais aguda, mas em alguns momentos é pela minha segurança, e em outros é porque eu quis. Porque eu quis, simples assim! Eu visto roupas hiperfemininas porque eu amo, mas antes eu vestia coisas que nem faziam tanto sentido pra mim porque eu tinha medo de não passar e sofrer violência. Eu visto roupas incomuns que gritam “queer” porque eu sou queer. Eu pego na mão da minha parceira quando andamos no parque.

Eu costumava tentar gostar de coisas, ou pelo menos dar uma chance, só porque outras pessoas gostavam. Já dei uma chance até pra sertanejo e funk. Mas agora eu percebi que eu não tenho que ser quem eu não sou. Eu não tenho que gostar do que eu não gosto. Se eu não gosto de algo, eu não gosto de algo. Simples assim.

Acabou que também passei a conhecer e interagir com pessoas que tem gostos parecidos. É simplesmente incrível falar sobre indie dos anos 90 com algumas pessoas, pois esse foi meu interesse especial durante anos na época do ensino médio.

Masking é muito comum entre autistas, mas agora eu não tenho mais minha máscara. Apesar de eu chorar muito, apesar de eu me sentir muito mal com frequência, apesar de eu querer me matar mais vezes do que eu gostaria, ser do jeito que sou me faz um pouco feliz.

Voltando ao glow up, eu acho que esse é o verdadeiro glow up que uma pessoa pode ter – de se reconhecer, de se conectar com o que ela mais ama, de se ater a seus valores. A casca reflete o estado de espírito de alguém. É por isso que, quando vemos uma pessoa melhorando cada vez mais em suportar as dores da vida, mais percebemos que ela vai ficando bonita. Leve. Doce. Amigável.

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